24 de janeiro de 2010

O que Beijing deixou em mim?

Quando cheguei em Beijing, só sabia falar 3 palavras em mandarim: nihao! = olá!, xièxiè = obrigada e zài jiàn = tchau. Com o passar dos dias, escutei muitas palavras, mas só aprendi e utilizei mais 3 expressões: wudaokou, qing huá dà xué dóng bei mén e dui.

Calma, vou explicar. Wudaokou é o nome da região mais próxima aos dormitórios onde a Fê estava morando. E onde tem o metrô mais perto também. Então, seja para pegar o metrô, para ir ao shopping, restaurantes, bares, lojas tínhamos que ir de taxi dos dormitórios até wudaokou. Se não fosse taxi, teria que ser bicicleta. Naquele frio??? Alugar uma bicicleta velha pra pegar um frio absuuurdo que congelava minhas enormes bochechas?! Não, obrigada. Passeio de bicicleta elétrica eu aceitei. Mas as que tinham pra alugar eram inacreditavelmente velhas. Até banco remendado eu vi. Gastava 10 míseros yuans ou 1€ para ir dos dorms (apelido carinhoso) até wudaokou de taxi. E como não é uma palavra difícil de dizer, entrava no taxi e dizia assertiva: nihao! iudaôkou (vem, repete comigo ;) E pronto. Caso eu quisesse ir de taxi para algum lugar mais longe, aí tinha que levar o guia do lonely planet comigo (muito bom, diga-se de passagem e pra quem vai ficar mais tempo também =), olhava pro taxista, apontava o nome do local escrito em chinês e voltava o olhar pra ele pra ver se ele demonstrava ter entendido. Como os lugares que fui sozinha eram turísticos, sem problemas, eles entendiam e me levavam.

Teve apenas uma vez que eu fiquei preocupada. Queria ir ao Dashanzi Art District, onde está a antiga fábrica 798 que agora virou um espaço para exposições e galerias de arte. A Fê tinha coisas pra resolver pela manhã, e então, lá fui eu logo cedo. Entrei no taxi, saludei o básico nihao e apontei pro endereço. Ele parecia ter entendido. Mas eu senti que não estava confiante. Pelo retrovisor, o observava... ele franzia a testa de vez em quando. Quando as coisas estão mais pra mal que pra bem, parece que o nosso feeling realmente funciona. A Fê tinha dito que esse local era longinho e que ia me custar entre 45 e 55 yuans. Quando o marcador mostrou 60, eu começei a suar frio. Pronto, o cara tá me levando pra ondeeee??? O que eu vou fazer??? Gritar socoooooorro??? Baaaahhh fiquem tranquilos, isso é só charminho pra deixar os leitores mais atentos. =P Tava de boaaa, como dizem lá na minha terra. Tinha o celular da Fê comigo e ela ficava em contato com um amigo dela que também morava nos dorms. Então, qualquer coisa, ligava pra ele e falava com ela. Mas que nada! Sai da minha frente que eu quero enfrentar as adversidades sozinha, agora ninguém me segura! Tava ansiosa pra ver no que no que aquilo ia dar... O motorista estava mesmo perdido. Parou o taxi e foi pedir informação pro primeiro cara que viu na calçada. Fiquei observando a conversa sem entender absolutamente nada. Depois, engraçado... só de ver a expressão do taxista quando caminhava da calçada até o taxi eu já sabia que ele finalmente sabia como chegar lá. Do retrovisor, via agora um olhar confiante, mãos no volante y ya! Here we are! O trajeto me custou um pouco mais caro né? Se soubesse algumas palavras mais, teria feito uma brincadeirinha, pedia um desconto ou algo. O que fiz mesmo foi entregar o dinheiro, retribuir com um olhar de alívio e me despedir: xièxiè.

Mas e pra voltar pra casa? Mesmo que eu estivesse chegado a wudaokou de metrô, saaame thing: tinha que ir de taxi de wudaokou até os dorms. Pra não ter erro e estresse, a Fê havia deixado comigo o cartão com o endereço e mapinha do prédio onde morava. Maaaaas, eu achava simplesmente o máximo tentar dizer o endereço. Já tinha pedido a Fê para praticar comigo algumas vezes. E o que se escreve assim: qing huá dà xué dóng bei mén, se diz mais ou menos assim tchín tchá dá xuê dông bêing mã! e significa prédio Zijing número 22 da universidade Tsinghua. Então, o plano que eu estabeleci comigo mesma era o seguinte: primeiro dizia o que havia treinado. Se ele fizesse cara de "heeeeein???", aí eu mostrava o cartão. Vocês não imaginam o orgulho que me tomava conta quando eu percebia que o taxista entendia o que eu havia dito sem ter que mostrar o cartão! Se depois que eu disesse a assombrosa expressão, ele fizesse um movimento assertivo com a cabeça e arrancasse, eu vibrava e dava um grito mudo pra celebrar! =D

Incrível como é bom se fazer entender. E pra quem trabalha na área de Recursos Humanos, se há um aspecto que sempre há de ser aperfeiçoado é o sistema de comunicação. Quantos procedimentos não se repetem porque a informação ainda não chegou. A falha no processo comunicativo e a burocracia são veeelhas amigas. Andam juntas desde a Revolução Industrial. E se o que é resolvido pelo chefe não chega aos demais membros da equipe, o sentimento de injustiça pode gerar desmotivação e afetar as metas, prazos e resultados. E nem precisamos dos exemplos de grandes empresas. Quantos casais não brigam porque "eu havia ditooo que...!!!" E do outro lado: "mas eu havia entendido que...". Ahhh e poucas coisas me dão mais raiva do que ir a Universidade para encontrar minha orientadora de mestrado e escutar ela dizer exatamente o que havia dito na reunião passada ou, simplesmente, o oposto. No primeiro caso, fico me perguntando do metrô até em casa: "Pra que eu fui até a Universidade???" No segundo caso, me pergunto no mesmo trajeto: "Afinal, que diabos essa mulher quer???"

Como pode então alguém passear por uma cidade um dia inteiro e se comunicar eficazmente sabendo falar 6 expressões? Sim, é possível. Todos nós utilizamos uma linguagem de maneira instintiva e inconsciente que se chama linguagem não-verbal. Essa linguagem serve para reforçar o que transmitimos com as palavras. Mas o seu poder é tão grande que ela pode substituí-las. Quando chegávamos a um restaurante, mostravámos o número com os dedos ou apontávamos pra nós mesmos para que a garçonete entendesse "Mesa pra... 2, 3, 4". Para pedir os pratos, bastava apontar pro que achávamos que poderia ser saboroso. E nessas horas o dui ajudava muito. O dui (vem comigo de novo: dúê ;) significa ok!, certo!, isso mesmo!, that's right! Pra não ter erro no pedido, depois que apontávamos todos os pratos pra ela no cardápio, ela anotava e depois voltava o olhar pra gente e apontava para todos os pratos - um - por - um de novo enquanto a gente ia respondendo: dui, dui, dui até que ela estivesse segura de que, de fato, estava tudo dui!


Uma viagem nos traz tantos aprendizados, lembranças, vontades, imagens, desejos, algumas vezes até amizades e muita saudade... Beijing me trouxe tudo isso. E me mostrou, em todos os dias que eu lá estive, a importância de nos conscientizarmos e de estarmos mais atentos a nossa linguagem corporal. Será que os meus gestos e expressões, a minha aparência, postura, o modo como eu caminho, o tom e volume da minha voz estão de acordo com o que eu quero transmitir? Nós sabemos que a linguagem corporal muda de contexto pra contexto e de cultura pra cultura. Mas cada um de nós tem os seus gestos e expressões próprios, que nos caracterizam e nos ajudam a nos comunicar melhor.

Beijing me deixou uma vontade grande de fazer maior e melhor uso das mensagens que expressamos com um toque, com os movimentos das mãos, com um sorriso, com o balanço das pernas, com as formas do corpo, com o carinho de um abraço e com a força do silêncio. Beijing me convidou a viver mais aquela velha e conhecida frase-clichê que é pura verdade: Um olhar vale muito mais que mil palavras.

More than words is all you have to do to make it real.

15 de janeiro de 2010

Beijing à primeira vista...

E foi numa terça-feira chuvosa em Barcelona que eu acordei, tomei um banho e fui pro aeroporto. Nem fome eu tinha. Queria chegar logo. Nada de duas horas antes, queria chegar três horas antes, queria chegar o quanto antes. Depois do check in feito e o cartão de embarque em mãos, aí sim fui ter a minha primeira refeição do dia. Manuel sempre ao meu lado, ele é o único hipopótamo lilás do planeta Terra que já esteve na América Latina, Europa e Ásia! O único problema dele é nunca discordar das minhas opiniões...
Coloquei os fones de ouvido, mas deixei o Ipod desligado. Quando estou sozinha, gosto de fazer assim. Seja pra me concentrar melhor ao ler um livro ou pra prestar atenção ao que se passa ao meu redor. As pessoas pensam que estou concentrada nas músicas enquanto, na verdade, eu presto atenção na conversa delas. Um casal de espanhóis tenta fazer os dois filhos comerem o que resta no prato. Depois começam a discutir entre eles na frente dos filhos. Quase que eu pedi pro Manuel ir lá, distraí-las enquanto os pais pareciam fazer questão de cada um dizer uma coisa pra deixá-las ainda mais aflitas e choramingonas. Com raiva daquele casal, fui logo pro portão de embarque. Comprei uma barra de chocolate ao leite e continuei a ler um artigo sobre o impacto da globalização na China. O artigo defende que o lado negro da globalização tem se tornado cada vez mais claro aos países em desenvolvimento desde o grande abalo financeiro mundial. Mas se a previsão de crescimento do PIB chinês em 2010 é de 9,5%, onde está a crise para a gigante RPC?

Gigante. Entrei no aeroporto gigante de Beijing e fui logo buscar um banheiro. A globalização tem feito com que determinados locais disponibilizem também o vaso sanitário ocidental, mas não são a maioria. Por outro lado, a maioria dos banheiros têm porta, mas de que adianta uma porta se a cultura da falta de privacidade permanece? Entrei no banheiro e vi uma mulher sentada de cócoras com as pernas e a porta abertas. Levei um susto e automaticamente pedi desculpas. Ela não deve ter entendido nada, estava apenas conversando com uma amiga enquanto fazia as suas necessidades. Quando o assunto é cultura, certo e errado são palavras que perdem seu valor. As chinesas dizem que o banheiro delas é mais higiênico que o nosso porque não sentam no vaso. Bem, nós também não sentamos naqueles que não sejam o da nossa própria casa. Difícil foi eu me acostumar... Nem sempre a minha mira funcionava muito bem e teve uma vez que só depois que eu já estava terminando, vi meu xixi atravessando a porta... Me vesti correndo, dei um pulo pra desviar da água que saiu do meu próprio ser e nem sequer olhei pras pessoas de tanta vergonha. Depois de pisar em xixi e sair sem lavar as mãos, eu ainda não entendia como aquele banheiro poderia ser mais higiênico que o nosso. Talvez deveria ter deixado a porta aberta também... pelo menos assim, estaria mais atenta.

Gostaria de dizer que não gosto de generalizações... então, não estou dizendo que os chineses não tomam banho ou dão menos importância a higiene pessoal que nós, ok? Mas o fato é que tanto no vôo Estambul-Beijing como no regresso, a região onde os chineses sentaram fedia a chulé. E digo a região mesmo porque nos dois vôos eles eram colocados juntos, nos últimos assentos do avião. Na ida, nem havia me dado conta disso e passei as intermináveis 9 horas ao lado de um deles. Achava que o cheiro advinha dessa pessoa em específico e nem me atrevi a tentar mudar de lugar porque o vôo estava cheio. Mas na volta, me colocaram mais na frente e quando decidi caminhar pelo avião para esticar as pernas, senti aquele mesmo cheiro da vinda quando passei pelas poltronas do fundão... e aí, as coisas pareceram fazer sentido. E eu não senti mal cheiro quando conheci chineses nos bares, quando passei por eles nos templos... nem no metrô senti um cheiro tão forte como no avião.

Mas se for pra falar do hábito que me incomodou mais, foi o de expelir saliva ao meio ambiente. E não pelo cuspe em si porque já vi muita gente cuspindo pelo mundo afora. Só que o meu cérebro só recebia a informação "cuspe no chão" se eu tivesse a infelicidade de ver este alguém cuspindo. Na China, parece que eles fazem questão de avisar: "Olha o cuspe chegando aó genteee!" porque emitem um barulho estrondoso antes de atirar. Então, mesmo que a pessoa não esteja ao alcance dos seus olhos, você vai escutar e imaginar o que vem por aí...!

Também não me esqueço do susto que levei quando limpei o salão (nossa, expressão típica da minha mãe essa!) no meu primeiro banho em Beijing. Eu fiquei olhando, olhando a minha meleca cor de carvão por 5 minutos! Não conseguia acreditar que ela pudesse ter aquela cor... A verdade é que a poluição de Beijing é facil de se ver e sentir. Ela faz com que o Sol pareça a Lua porque durante o dia o que via era uma bola laranja ao invés do clarão que se espalha pela atmosfera. Os raios solares são bloqueados por fumaça e pó. E se quando cheguei por lá pensei que havia tido o azar de me deparar com um dia nublado de inverno, percebi ao longo dos dias que nublada é a cidade de Beijing: seja com sol, chuva, neblina ou neve. Mais que isso, se ler nos noticiários deste lado do mundo que Copenhague representou o fracasso da gestão da ONU, foi em Beijing que todas essas críticas tiveram outro significado pra mim. Senti na pele o drama da impotência dos organizadores por não conseguir conciliar as exigências dos 193 países e agora levanto a bandeira com mais força ao dizer que o dragão chinês necessita de ajuda a curto prazo para diminuir a emissão de poluentes.

Muitas pessoas comentaram comigo que deveria levar a mala vazia pra China. Ahhh por que lá deve ser o paraíso das compras! Se aquilo ali é o paraíso, eu definitavemente prefiro ir pro inferno. Ou quem sabe trabalhar mais pra poder continuar comprando numa loja normal e não ter que barganhar tanto... No Silk Market, ou Mercado de Seda, time means saving money! Definetly! Quanto mais tempo você tem pra barganhar com as chinesas, mais barato o produto sai. Um produto que a princípio é ofertado por 900 yuans pode sair, após 5 minutos de conversa, 500 yuans. Após 30 minutos: 200 yuans. E foi assim com as botas de inverno que comprei com minha companheira de viagem, Sylvia. A chinesa disse que os dois pares sairiam por 1800 yuans, eu sugeri 1000 e ela aceitou. Eu já estava com os 500 yuans em mãos, feliz de ter conseguido o descontão e a Sylvia olhou pra mim e disse: "- Ju, você não sabe comprar na China... tá louca? Precisamos baixar mais!!!", até que ela alcançou o valor de 225 yuans por cada par e eu saí boquiaberta por ter pago 22,50€ pelas botas que salvaram meus dedões do pé do congelamento...
Além de cansativo, eu me segurava pra não rir durante a compra. Como o inglês de muitas vendedoras ainda é fraco, elas respondiam muitas frases feitas. Observe o diálogo entre eu e a vendedora para comprar uma carteira.

- I'd like this red wallet. How much does it cost?
E então, ela marca na calculadora e me mostra: 80 (yuans).
Eu faço cara de reprovação, apago os 80 e marco 60 na calculadora.
Ela olha pra mim com cara de choro e diz: - You're breaking my heaaaart!!!
Eu me seguro pra não rir e respondo: - I wanna be your friend, honey! Why would I break your heart??? Com cara de Kate Winslet vendo o Leo di Caprio partir... - Do you wanna be my friend? Let's make a deal, disse eu assertiva já me achando uma expert em compras na China.
Ela marca 70 e eu agora marco 50. Ela agora faz cara de brava e diz: - Are you kidding me? This is good leather, look girl, good leather!!! Então, ela faz cara de quem comeu e não gostou e busca um isqueiro e o acende na minha frente, passando o fogo pela carteira pra me impressionar... Eu digo pra ela que não tenho 70, só 50.
Aí ela pergunta: - Do you have a boyfriend? You're so pretty, ask your boyfriend more money.
- No no no boyfriend! I've 50 yuans and I've to go now. Byeee!!!
Eu vou saindo e a chinesa me puxa pelo braço e diz - Ok, ok! You're my friend. I can make this offer for you... Levei minha carteira por 5€ e ainda teve gente que disse que fui mole. Podia ter conseguido por três...

A visita ao Mercado de Seda me fez refletir sobre o valor e a veracidade das coisas. Afinal, será mesmo que eu comprei uma carteira de couro? E a mão de obra delas, quanto vale? E a hora de trabalho das vendedoras, tem preço? Quanto vale o tempo que eu disponibilizo pra baixar o preço de um produto? Não seria mais rico estar caminhando pelas ruas de Beijing? E será que vale a pena comprar aquele produto simplesmente porque é barato? Não mesmo. Mais uma vez e especialmente desta vez me senti uma idiota perdendo meu tempo fazendo compras. Comprei duas botas, dois casacos e uma carteira. E mesmo só tendo comprado o que precisava, meus tico e teco poderiam ter sido melhor aproveitados nesses minutos...

Quando quis comprar uma saia, fui num shopping mesmo, ao U-Center. Ahhh estava feliz e contente que não tinha nenhuma chinesa me tocando e gritando pelos corredores como no Silk Market. Escolhi uma saia e pedi meu tamanho a vendedora: M. Ela trouxe o M e não passou do joelho. Bem, vai que é o modelo, né? Pedi logo a L. Só que a Large não passou do quadril. E pela primeira vez na minha vida comprei uma roupa Extra Large. Tudo bem que de fato preciso baixar uns 3, 4 kilinhos, mas comprar roupa com o padrão chinês pode gerar depressão... saí da loja com fome e quase arrisquei uma salada de polvo. É... o que a economia, prédios, estradas, templos e dagrões têm de grande na China, os chineses têm de pequenos. Não tem como comparar a estrutura das brasileironas com o corpo das chinesinhas. Comi noodles mesmo, oras, tinha fome!

Falando em comida, eu perdi as contas de quantas vezes me perguntaram se eu comi cachorro em Pequim. Vou responder igual a Fê: - Pode ser que tenha comido e não saiba... Como a maioria dos cardápios estão escritos apenas em chinês o que nos ajudava a fazer o pedido eram as fotos. Mas, mesmo assim, em 50% das vezes, eu não conseguia identificar os ingredientes nem na foto e nem depois de ver-los e degustar-los! O que posso dizer é que a comida é sim diferente da chinesa que comemos no Brasil, Portugal e Espanha. Muitos dos pratos são apimentados e como a escolha era sempre no chute, o agrado também vinha com a sorte. Às vezes achava delicioso! Outras vezes não conseguia terminar. Provei ao máximo a gastronomia chinesa e coreana, que representavam uma novidade pra mim, mas também comi pizza, salada, cheescake, burritos e sushis. Até padaria francesa já tem por lá... mas eu deixo aqui a minha opnião: não chega aos pés de uma padaria francesa de verdade... de qualquer forma, imitar é o forte deles! E cada dia que passa, há mais imitação do mundo todo por lá.

Este post traz o que vi, vivi e provei em Beijing das 17h do dia 23 de Dezembro às 15h do dia 24. Fique tranquilo: não farei um post para os 15 dias! Infelizmente, não tenho tempo pra isso. Queria apenas que vocês sentissem um pouco quantas coisas me chamaram atenção em tão pouco tempo...
No próximo post, há que trazer o conteúdo menos perceptível, menos visível. Há que se falar de política, de crenças e valores, de linguagem verbal e não-verbal, de arte e sentimentos. E, claro, de quem os carrega e os faz existir: o povo chinês.

7 de dezembro de 2009

Vou visitar 李芳 = Li Fang!

Como este fim de ano eu já sabia que não ia ao Brasil e meus pais não vem me visitar como no ano passado, só me restava uma outra boa opção: conhecer mais uma cidade! Planejar uma viagem com a Cary (baiana querida que morou comigo em Coimbra) e/ou com mais alguns amigos(as) do master a alguma cidade que ainda não conhecemos aqui pela Europa era minha primeira e, sem sombra de dúvida, ótima possibilidade! Inclusive porque, claro, há milhares de cidades que eu ainda não conheço e estou louca pra encontrar-las logo, entre elas: Berlim, Budapeste, Praga e Amsterdam...

Bem, só que daí a Li Fang não parou de me enviar e-mails me pedindo pra visitá-la na China. Não não não, a Li Fang não é nenhuma amiga chinesa que conheci pelas minhas andanças pelo mundo, ela é brasileira mesmo, lá de Santa Catarina e nos conhecemos em 2005. Eu, ela e mais três pessoas havíamos conseguido uma bolsa pra estudar durante um semestre na Universidade McGill, Montréal, Canadá. Eu comecei a buscar essas pessoas para conhecê-las antes de viajar. A Fernanda - é assim que ela se chama no Brasil - foi a que respondeu ao meu e-mail de maneira mais rápida e carinhosa. Disse que queria sim me conhecer antes de ir e que adoraria poder planejar viagens comigo. Mas, segundo ela, isso deveria ser feito logo e infelizmente deveria ser um único encontro porque como já estávamos em finais de junho e em agosto já deveríamos ir a Montréal, ela passaria o mês de julho em Floripa com a família. Então, em uma simples conversa por telefone, com muita empolgação e vontade de aproveitar o tempo da melhor forma, decidimos: vamos comprar a passagem juntas pra Montréal, chegamos juntas, ficamos no mesmo hostel, buscamos um lugar pra morar juntas, moramos juntas e viajaremos para NYC e Washington DC antes das aulas começarem. Pronto, decisão feita, nos encontramos pela primeira vez na agência de intercâmbio CI da 405 norte (agora fica na 211, se não me engano...) pra comprar as passagens. Compramos e de lá fomos almoçar no Naturetto (sim, eu já era frequentadora assídua do investimento do Tobias há muito tempo =). Nesse primeiro encontro, mal tivemos tempo de conversar direito e foi no dia do embarque, 5 de agosto ou por aí, que entramos no aeroporto e as 12 horas de viagem passaram que eu nem vi... era eu e ela se descobrindo, contando histórias marcantes da nossa infância e adolescência, dos momentos inesquecíveis e dos sonhos pessoais e sociais que ainda almejávamos alcançar, ver e viver.

A nossa amizade foi se consolidando ao longo desses meses de maneira super intensa, respeitando o momento, o espaço e as diferenças de cada uma. Depois que as aulas na McGill terminaram, como a UnB entrou em greve, decidimos (como era mais barato e eu não tinha idéeeia de qndo poderia voltar a Europa novamente), planejamos nosso primeiro mochilão pela ZoRopAaa!!! (É tão louco lembrar que naquela época eu realmente achava que não voltaria pra cá nem tão cedo...) Foi com a Fê, o irmão da Fê (Felipe), a prima da Fê (Mari), uma amiga da Fê (Manuuu) e o ex namorado da Manu que partimos para a esperada viagem a Londres, Barcelona, Roma e Paris. E Barça foi a cidade escolhida pra entrar 2006 com o pé direito. Fizemos uma reserva num restaurante no Porto Olímpico e todas as vezes que passo por ali e pelos lugares que estivemos, lembro como se fosse ontem de cada detalhe, do que comi no jantar, do momento do brinde, da gente buscando um orelhão pra ligar pros nossos pais, até a correria pela praia, todos gritando de alegria pra espantar o frio. Dançamos até o sol nascer e esses momentos todos fizeram minha relação com a Fê cada vez mais forte e a vontade de conhecer a Europa mais a fundo, também.

Assim como eu, a Fê também queria voltar a viver fora depois de se formar na UnB. Só que ela buscou opções nos Estados Unidos. Desde o ano passado está fazendo um mestrado em Relações Internacionais em Syracuse, maaaaaaaaaas poderia escolher qualquer lugar do mundo pra fazer o último semestre: inclusive uma cidade brasileira, se ela quisesse. A minha amiga escolheu então a capital de um país emergente como o Brasil, que tem chamado cada vez mais atenção de estudiosos de todas as partes, pelo estrondoso crescimento econômico mas por uma democria caracterizada por ainda ter largos passos a percorrer...

O nome completo da Fernanda na China é 李芳, mas como esses símbolos não me transmitem qualquer informação sem um google translate por perto, ela explicou: "Ju, se pronuncia Li Fang". E a Fê, pelo menos por alguns meses, virou Li. Tive que pedir o nome, telefone e endereço dela pra pedir o visto.

Conseguir o visto pra China foi tão enrolado que mereceria outro post! Não pelo trâmite em si porque, na verdade, em 4 dias úteis o visto chega na sua casa, mas especialmente pela minha condição atual: sou uma brasileira, com documento de identidade português que moro na Espanha e quero ir a China... com o documento de identidade português eu não pude pedir o visto em Barcelona e tive que passar uma noite em Lisboa. O que poderia ser uma simples viagem Bcn-Lisboa foi um pouco mais complicado que isso, maaaaaaaas, com o fim do ano chegando, deixemos as complicações de lado e focalizemos nossa atenção ao que é positivo: o visto da china e as passagens já estão em minhas mãos!!! =) Agora, só me falta comprar um bom casaco de menina-esquimó, porque deve fazer abaixo de zero por lá, e trocar alguns €uros por yuans.

É... em 2009 não passarei o Natal perto dos meus amigos e familiares. Não vou participar de amigo oculto, nem ajudar a minha mãe a comprar os presentes. Não tenho a menor idéia de como vamos passar essa noite, mas pode ser que a passemos comendo cachorro no espeto, caminhando pelas ruas de Pequim... por quê não?! Na companhia de uma grande amiga, em uma cidade totalmente nova. E tem opção melhor??? Pra mim, não tem. Estou num momento tão bom de curtir a liberdade que aproveitar as oportunidades exóticas e enriquecedoras que me surgem é o melhor que eu posso fazer! Se preferimos a opção tradicional ou a mais inusitada, isso não importa. Importante mesmo é estar onde queremos estar. E estar bem. Eu me sinto tão bem, mas tão bem que só a Nina Simone pra me ajudar a expressar esse feeling todo...


"It's a new dawn
It's a new day
It's a new life for me
and I'm feeling gooooood!!!

Oh freedom is mine
and I know how I feel..."


Ju & Li @ Brasilia
Agosto de 2009

14 de novembro de 2009

Respuesta a una amiga, a la soledad y al miedo

Hace dos semanas, recibí un mensaje de una amiga por coreo electrónico. Nos vimos la última vez no hace mucho tiempo, en agosto, cuando estuve de vacaciones en Brasilia. En el mensaje, ella me decía que está pasando por un momento de decisiones difíciles sobre qué hacer de su vida: quiere cambiar de alguna forma pero no sabe en qué aspecto ni cómo. Ella es una gran amiga, una mujer muy fuerte e inteligente y ahora está empezando a pensar en la posibilidad de salir de casa. Entonces, ella me dijo que se acordó de mí para ayudarla. Me sentí súper orgullosa de que ella tenga se acuerdado de mí. En el mensaje, ella me hizo algunas preguntas: “¿Cómo es vivir lejos de tus padres durante dos años?”, “¿Echas mucho de menos a tus amigos de Brasilia?”, “Te sientes muy sola?”, “Como enfrentas los momentos de soledad?”

Mientras pensaba en cómo iba a contestar a las cuestiones hechas por mi amiga, muchas ideas y reflexiones pasaron por mi cabeza y miles de sentimientos pasaron por mi corazón. Lo que podría ser sólo una conversación entre amigas, se ha convertido en un momento terapéutico.

Estoy segura de que fue mucho más fácil salir de casa por 2 años después de ya haber afrontado esta misma experiencia por menos tiempo en otros periodos. Después de vivir en Toronto durante dos meses en 2004 y en Montreal durante seis meses en 2005, quería salir de Brasil en 2008 no apenas con ganas de hacer un Máster, pero especialmente porque ya imaginaba que sería más una experiencia increíble en términos de maduración y crecimiento personal. O sea, cuando tenemos la posibilidad de enfrentar retos difíciles poco a poco la adaptación es mucho más fácil que cuando los debemos enfrentar de una única vez.

Le dije a mi amiga también que echo mucho de menos a todos mis amigos, por supuesto. Tener un amigo de otra cultura que no sea la tuya, compartir asuntos íntimos con personas que no hablan tu lengua materna es bastante delicado. Tengo, en muchos momentos, una sensación de tristeza y de pérdida (incluso) de los que amo en Brasil. Muchas veces siento, cuando miro sus fotografías y descubro sus novedades, que no estoy participando de la vida de ellos como gustaría. Pero, al mismo tiempo, evito llamar a mis amigos o familiares en Brasil con constancia. También nunca tuve muchas ganas de buscar las asociaciones de brasileños en Portugal o España. És muy fácile encontrar brasileños por las calles y claro que conocí muchos brasileños así, hablando espontáneamente con ellos cuando les escuchaba, pero tampoco me esfuerzo para participar de citas brasileñas. Desde que llegué, me dije a mi misma que solamente sería capaz de construir nuevos lazos aquí si no estuviese conectada a mi país con frecuencia. Creo que vivir con plenitud en otro sitio exige enfrentar la soledad.

Luego, amiga querida, el cambio más doloroso que sufrí en estos meses no se debe acostumbrarme con la cultura, la comida, el clima. Tampoco se refiere a hablar en inglés o español, tener muchos trabajos que hacer o plazos a cumplir. Lo que más me llamó atención en términos de aprendizaje personal fue notar la importancia de la seguridad. Notar que no soy tan segura como pensaba que era. Y tengo notado la presencia de la seguridad en diferentes contextos. La mejor presentación de un trabajo de cualquiera asignatura no fue de aquel colega que yo sabía que había estudiado bastante, sino que de aquel alumno que transmitió más seguridad mientras hablaba y, por esto, explicó todo de forma muy clara y tranquila. Claro que el conocimiento lleva a una mayor seguridad, pero ni siempre es así. Otro ejemplo. Me dé cuenta que los hombres que con quien me interesé por demasiado en toda mi vida fueron los que se demostraron extremamente seguros de ellos mismos y de sus escojas al estar a mi lado. Y esta seguridad me transmitía una confianza que me invitaba a querer estar con ellos por más y más y más tiempo. No estoy hablando de personas con elevadísima alto-estima ni mucho menos snobs, pero de personas de reconocen sus cualidades y defectos y saben vivir consciente de ellos.

Puede parecer raro para ti, querida amiga, decirte esto pero vivir sola me hice llegar a una conclusión interesante: aquí tengo menos amigos, pero siento que tengo más libertad. Pocas fueron las veces que tuve que decidir qué hacer por fines de semana en Brasilia: ya había siempre dos o tres invitaciones para fiesta en la casa de uno, cumple de otra, cena con mis amigos del inglés, cine con los amigos del francés, longos almuerzos con mi papa o mama y barbacoas con la familia. Aquí, abro los periódicos y me pregunto: ¿para dónde me voy hoy? Me deparé con el miedo en muchos momentos que no quería quedarme en casa y no tenía otra opción. Poco a poco sentí que al revés de tener simplemente que buscar algo que hacer en casa y sentirme sola, podría hacer lo que quiero. Tomar una ducha, arreglarme, y salir: ir al cine, a un concierto o comer en un bueno restaurante. Puedo y no hay razón para tener miedo de ir para dónde quiera, independiente de la compañía ser mis propios deseos.

Siempre me gustó estar sola por las tardes en mi casa, pero no estaba acostumbrada a salir sola. Creo que esto se debe también a la organización y socio estructura de Brasilia, de los bares y restaurantes (que no tienen balcón) y especialmente a la cultura brasileña que no valora la experiencia de aprovechar momentos solos. Imagino que esto va cambiar y ya está cambiando como consecuencia de la coyuntura actual.

Amiga, en algunos momentos, tomar la decisión de salir sola fue muy fácil. Ya salí y aproveché mucho diversas noches especialmente en Gràcia donde vivo y que me ofrece muchas buenas opciones. Pero, en otros muchos momentos tuve que crear una fuerza, a cual aquí llamo de seguridad para enfrentar los miedos que me surgieron en los momentos que en que no tuve nadie para compartir mis novedades o hacerme compañía. Y hasta hoy es así: algunas veces ya llego en casa con todas las ganas de salir muy pronto como hay otras en que miro por la ventana y me quedo indecisa sin saber qué hacer.

Aprendí y tengo aprendido que la experiencia de vivir en profundidad (sea donde sea: en nuestra ciudad o en cualquiera) exige que sepamos sentirnos solos y este aprendizaje es inmensurable. Más que esto, nos ayuda a que sepamos relacionarnos con otras personas. Hoy, estoy segura de que no hay nada mejor en la vida que estar cerca de las personas que amamos. Mejor que esto es estar cerca de ellos después de ter vivido momentos en que fui capaz de aprovechar la vida, sentirme bien y manejar desafíos sin la presencia o ayuda de ellos.

Amiga, no sé si te ayudé, pero necesito decirte que las preguntas que me hiciste me inspiraron muchísimo. Te echo mucho de menos, pero ya sabes porqué no te busco tanto. Quédate tranquila que sobre mis cambios y novedades más fuertes serán compartidos contigo. Y espero que tú hagas lo mismo. =)

Un fuerte abrazo, Ju.