23 de dezembro de 2008

2AA9

O que desejar à minha família e amigos no ano que está por vir?! Ontem, antes de dormir, estive a lembrar de algumas reflexões que fiz nos últimos meses aqui em Coimbra, no meio de tantas aulas, de tanta saudade, preocupações com prazos e trabalhos, no meio de tantas novidades e novas amizades. E cheguei a uma conclusão: desejo que você, leitor-amigo, sinta-se Agente no ano que está por vir e que, ao agir, respeite suas Atitudes.

“ - Calma lá” – diria um amigo meu português. “Explique melhor essa ideia aí, ô pá!”

É claro que a cultura brasileira difere bastante da portuguesa, principalmente nas formas de tratamento, de se expressar, de abordar as pessoas, de trocar afectos… Mas, achei interessante perceber que alguns traços culturais deles se assemelham aos nossos. Não são apenas os brasileiros que se atrasam. Aqui as aulas costumam começar alguns minutinhos depois, em média 15, e isso tem até nome: quarto de hora académico. “- Professora, nossa reunião vai começar na hora?” Ela esboça um sorrisinho e diz: “- Vai, com o quarto de hora académico”. E não são apenas os brasileiros que furam fila. Nas cantinas (nossos RUs), já cheguei a ver entrar 5 rapazes de uma só vez. Tinha uma senhora atrás deles e eu perguntei a ela " - A senhora viu isso?” e ela me respondeu “- É sempre assim…”. Corrupção?! Universidades que se transformam em fundações?! Centros académicos com baixa representatividade?! Montanhas de papéis jogadas fora todos os dias na xerox da Faculdade?! É, na Universidade com mais de 700 anos, algumas práticas se assemelham ao que vemos naquela idealizada por Darcy há menos de 50 anos. Pois é... mas, mais triste que ver isso acontecer, é ouvir o que alguns portugueses me disseram quando sugeri: " - E se tentássemos diminuir os atrasos, falar com aqueles que furam fila, combater a corrupção, separar mais tempo de dedicação à nossa representação académica e enviar os papéis a centros de reciclagem?": “- Ah, mas por quê eu?! Eu sou apenas mais um…”

Eu almejo às pessoas que amo que, se o possuem, deixem o comportamento passivo de lado. Que não se vejam como mais um. Mas sim como um. Um que vive com vários outros e que pode influenciar outros e mais outros... Desejo que sintam-se agentes. Se pode transparecer muita prepotência pensar em agentes do mundo, que tal agentes da comunidade, do prédio onde moram, da universidade onde estudam? Falta-nos acreditar mais no poder de transformação das pequenas acções do dia-a-dia, falta-nos acreditar que nossa forma de agir encoraja, pelo menos, aqueles que estão ao seu redor, e que, podem até ser poucos, mas são especiais. Sejamos agentes: nem que seja apenas na nossa própria casa.

Outro aprendizado que carreguei muito comigo este ano – e acredito que todos os mestrandos passam por isso – foi saber dar nome aos fenómenos. Um bom psicólogo social, educacional ou do trabalho precisa saber a diferença entre competência e conhecimento. Entre habilidade, capacidade e aptidão. Entre comportamento, atitude, crenças e valores. São diferenças ténues, mas que existem e não podem ser ignoradas, muito menos confundidas com as noções do senso comum. Um conceito que me chamou atenção foi o de atitude. Ser uma pessoa de atitude, como dizemos no dia-a-dia, é uma pessoa que age, como dizíamos a pouco, que sabe o que quer e procura alcançar.

No entanto, para a psicologia, a atitude é um construto que envolve aspectos cognitivos e consequências comportamentais, mas, antes disso, são formadas e guiadas por um componente afectivo, emocional. Consistem em demonstrações de preferências ou aversões para certas actividades, objectos ou pessoas. Quando escolho escutar samba a fado, utilizar o dinheiro que guardo em viagens ao invés de compras, votar em um candidato ou outro, sinalizo minhas atitudes. Para alguns, elas envolvem crenças e valores pessoais, embora estes sejam normalmente mais gerais, enquanto atitudes são mais específicas e orientadas para certas finalidades.

Por fim, meu segundo e último desejo para o ano que está a caminho, é que vocês fechem os olhos e lembrem-se de tudo que os tocam emocionalmente, em tudo que vocês sonham fazer, alcançar, realizar que não conseguiram neste ano que ficou. Aprendi este ano que caso nós não separemos o nosso tempo para o que nos dá prazer, ninguém o vai fazer por nós. São muitos interesses em conflitos, é sempre muito trabalho a ser feito, nós somos cada vez mais responsáveis pelo nosso futuro profissional incerto e volátil, é verdade. Apenas não devemos nos esquecer que também somos responsáveis pela busca do que nos faz bem. Muitas pessoas estarão sempre na torcida, desejando, de muito ou pouco longe, que sejamos felizes... mas decidir, agir e viver com o coração aberto... isso, só cada um de nós pode fazer.

Que 2009 seja mais surpreendente - para melhor - do que esperamos e que seja um ano fruto das nossas acções e carregado de emoções.

21 de novembro de 2008

Você também vai passar por isso.

The entire world is facing an expressive demographic change: the number of young people is decreasing and the number of older people, increasing. As more and more individuals retire and as their healthy longevity increases, there is also more interest on studying the factors that predict quality of life in later retirement (Gall & Evans, 2000). Some research findings indicate that individuals are responsible for their success or failure in retirement and, consequently, responsible for their own planning. Meanwhile, other studies support that organizations should enable individuals to identify and fulfill their expectations for retirement and offer them a retirement planning (Maddox, 2005). Thus, to face this social and economic context, organizations of the XXI century have to develop practices and policies focused on two main actions. Firstly, maintain and improve employees’ health to keep them longer in the work process and best make good use of their potential. Besides that, they should provide an early planning to all workers in order to make the transition to retirement a “process” and not a “rupture”. However, before planning a retirement program, counselors should attend to worker’s expectations of the future that may serve as a point of departure to help the individual to cope with the eventual difficulties of the transition (Nuttman-Shwartz, 2004). Moreover, given the importance that the work takes in contemporary society, the assessment of the perceptions and feelings associated with personal and professional life as well as the possible reasons of retirement (professional stress, external pressures, personal interests, unforeseen circumstances) allows to understand better how the transition to retirement occurs between different people (Floyd, Haynes, Doll, Winemiller, Lemsky, Burgy, Werle & Heilman, 1992).

Crescer, iniciar um novo ciclo de vida, começar um novo trabalho, morar em uma nova cidade, vivenciar um novo amor. Envelhecer, fechar uma etapa da vida, sair do trabalho (seja por vontade própria, seja por vontade de outrem), despedir-se de uma cidade, perder um amor. Cada um de nós enfrenta ou enfrentará um dia uma ou algumas dessas voltas que o mundo dá.

No último ano da minha graduação, eu disse a mim mesma que precisava enfrentar um novo ciclo antes de concluir o meu curso: precisava ter uma experiência prática na área clínica. E foi no grupo da Prof. Inês Gandolfo que me foi dada a oportunidade de atender um grupo de mulheres entre 50 e 65 anos com base na abordagem humanista denominada Psicodrama. As temáticas que apareciam nas sessões eram bastante diversificadas. As corajosas mulheres que lá estavam, pagando um valor simbólico pela necessidade de sentirem melhores ao longo do tempo reportavam insegurança, medo e ansiedade quando se referiam à síndrome do ninho vazio (sentimento de enorme vazio emocional com a saída dos filhos de casa), ao luto (algumas delas eram viúvas e começavam a vivenciar a perda de pessoas conhecidas), à solidão, à dificuldade de manter fortes laços de amizade e de ter um relacionamento íntimo. Outro assunto que discutíamos muito era a saída delas do mundo do trabalho. A perda de um papel e os efeitos que essa perda representariam em suas vidas eram encaradas de diferentes formas: algumas diziam que estavam sonhando com a chegada do dia em que poderiam ter o tempo livre pra fazer o que bem quisessem. Outras, expressavam que se sentiriam extremamente perdidas caso não pudessem mais voltar ao trabalho e que, além do emprego, perderiam amigos, hábitos, costumes...

A decisão sobre qual seria o tema da minha investigação começou a tomar forma no dia 10 de Outubro deste ano e a decisão aconteceu no dia 23. No dia 10, eu tive minha primeira aula de Qualidade de Vida no Trabalho com a professora Margarida Pedroso Lima. Ela se apresentou e disse que pertence aqui ao que corresponde ao Departamento de Psicologia Clínica na UnB. Contou-nos que possui formação em Gestalt terapia e Psicodrama e que foi convidada para ministrar a disciplina e ser uma das orientadoras para o nosso mestrado. Ela explicou que, apesar de não ter formação em Psicologia Organizacional, atua como consultora na área de Saúde no Trabalho há muitos anos. O tema que ela propõe para investigação é a 'reforma' (
'reforma' denota, para o português de Portugal, 'aposentadoria', termo que se assemelha aos seus correspondentes em inglês: 'retirement' e francês: 'retraite'). E eu já havia pensado em escrever sobre este tema no meu mestrado caso tivesse ficado em Brasília. Já havia conversado com o professor e amigo Mário César Ferreira, que me atentou para a relevância deste tema na atualidade. Não preciso dizer que a minha identificação com a Professora Margarida e com o tema que ela propôs foram imediatas, né?

Ao começarmos a conversar sobre a definição do projeto, sugeri se não poderíamos construir um Programa de Preparação para a Aposentadoria já que sei que há poucas instituições que adotam esses Programas, mas que em termos de planejamento de carreira, eles são fundamentais. A resposta da Margarida foi a seguinte: “Vocês pode fazer isso no doutorado. O tempo o qual você dispõe não é suficiente para fazer isso. Eu sugiro que você comece com a realização de um diagnóstico sobre quais fatores pessoais e organizacionais influenciam na decisão do indivíduo em se reformar. A problemática a qual nos deparamos hoje é que há um interesse crescente das pessoas em se reformar mais cedo. No entanto, o que o contexto econômico e social pede é que as pessoas prolonguem a sua saída do mercado de trabalho. Analisemos, então, o que leva um indivíduo a querer ou não se reformar e o que as organizações podem fazer diante desta decisão. Nosso papel é pensar concomitantemente no bem-estar do trabalhador e na rentabilidade da organização".

Meu projeto ainda está em construção. Vim aqui contar pra vocês que sinto-me realizada com a escolha feita. Percebo que o tema é atual: é comum encontrar reportagens nos jornais sobre as reações dos trabalhadores frente às mudanças legais referentes à reforma. Observo que ainda há muito a ser investigado: as pesquisas que fiz em reconhecidas bases de dados possuem poucos artigos com o foco que eu pretendo dar. A maioria das pesquisas foca nos aposentados, eu quero investigar as expectativas daqueles que estão em transição para a reforma. Construir um projeto do 'zero' com alguém que também é novo nesta área de investigação faz com que eu me sinta mais à vontade com a minha orientadora e que tenha a consciência de que um desafio muito gratificante está à minha espera. Conversar com a Margarida sobre qualquer assunto e ver a forma como ela ensina, pesquisa, orienta apenas reforça o meu desejo (muitas vezes explícito, outras vezes, escondido) de, em breve, realizar uma formação na clínica. Acredito que a formação não irá se opor, mas apenas contribuir para as competências que tenho desenvolvido na área organizacional, a qual gosto muito também.

Por fim, estudar este tema envolve ler sobre diversas dimensões do mundo que circunscreve as pessoas que estão em transição para a aposentadoria. Estou motivada a refletir sobre as determinantes legais da aposentadoria, sobre os efeitos do envelhecimento na saúde física e mental do indivíduo, sobre a capacidade do Estado em aumentar ou não os gastos com a previdência, sobre as fases de desenvolvimento humano, sobre perdas e luto, sobre a minha entrada no mercado de trabalho, sobre... roda mundo roda gigante... o tempo passou num instante, nas voltas do meu coração... para obter uma visão holística desse campo de estudos.

- Every exit is an entrance to somewhere else - Tom Stoppard.

8 de novembro de 2008

Desejo mesmo de mudar...















Ele: Vamos entrar
Ela: Não tenho tempo
Ele: O que é que houve?
Ela: O que é que há...
Ele: O que é que houve, meu amor,
Você cortou os seus cabelos?
Ela: Foi a tesoura do desejo,
Desejo mesmo de mudar...

Tesoura do desejo - Alceu Valença

26 de outubro de 2008

Voy vivir en España

No dia 21 de outubro, terça passada, recebi o resultado oficial: a minha Host University será a Universitat de Barcelona (http://www.ub.edu/), ou seja, passarei o período de mobilidade do mestrado na cidade de Barcelona, Espanha. O grupo "Home-Coimbra + Host-Barcelona" é composto por quatro pessoas: yo, Sabrina (brasileira), Ana Teresa (portuguesa) e Eduardo (português). Um dia escreverei mais sobre eles!

Depois de cerca de 10 meses sonhando em morar em Paris (porque submeti minha candidatura em dezembro do ano passado), confesso que levei um susto quando recebi a resposta. Na hora, o choque não foi tão grande porque o Eduardo e a Filipa vieram me contar a notícia com um sorriso no rosto: já que muitas pessoas imaginam, outras comprovam, e milhares divulgam: Barcelona é uma cidade fantástica. Espero poder dizer o mesmo. Na realidade, dentro deste resultado existe uma história looonga para responder às questões: por que não foi Paris? por que não foi Valência? por que caí em Barcelona? Mas, de verdade, estou sem paciência total pra contar essa história à vocês. Muitos foram aqueles que me disseram: "Tudo que acontece na nossa vida tem um sentido pra ser, tem um momento pra acontecer, nada é por acaso!" Eu confesso que apesar de concordar que muito do que acontece na nossa vida não está ao nosso alcance, sempre tentei fazer de tudo pra ser agente do meu caminho. Neste caso, eu inclusive averiguei a possibilidade de mudar esse resultado. E descobri que poderia mudar. Mas, desta vez, como também estava sem paciência para mais burocracia, mais papelada, mais espera, e como acredito que, em qualquer cidade que fosse, seria uma experiência rica, prefiri não mudar e investir as minhas energias em acreditar e viver em breve: serei uma nova mulher pós-Espanha! =)


Quanto tempo ficarei por lá? Minhas aulas começam no início de março. Pretendo ir em fevereiro para ter tempo de procurar um cantinho pra ficar. A princípio (= inicialmente) e em princípio (= teoricamente, isto é, segundo as regras do mestrado), o período de mobilidade é de um semestre. Assim, final de julho, início de agosto começam as minhas férias e eu já poderia deixar a cidade. Maaas, conheço algumas pessoas que solicitaram ficar 1 ano na Host e conseguiram. Isso depende do caminhar da dissertação, da relação com o Host Tutor (orientador de Barcelona), do local onde vou coletar os dados, da grana, enfim... só vou decidir isso quando estiver lá e sentir se vale a pena ou não pedir para aumentar o período de mobilidade.

Bom, mas eu não fiz este blog para escrever sobre o futuro certo. Muito menos sobre o incerto! Muitos posts sobre Barcelona virão. Minha vida é aqui e agora! É sentimentos, percepções, desejos e pensamentos sobre como me sinto hoje aqui em Coimbra. E neste exaaato momento encontro-me satisfeitíssima em termos físicos e psicológicos! =) Estou com a minha barriguinha cheeeeia de muqueca de peixe, de camarão, pirão, arroz branco, farinha!!! =P É que uma amiga da Cary, a Isa, que também é de Salvador mas mora em Setúbal veio passar o final de semana com a gente para curtir a Latada (festa tradicional aqui de Cuímbra que começou na quarta passada e só termina nesta quarta) e para cozinhar uma muqueca de peixe D-E-L-I-C-I-O-S-A!
Agora, queridos leitores, preciso ir. Vários textos enormes esperam po mim. Deixo vocês com a imagem da minha unha rosa (fui eu que pinteeei =) e da muqueeeca verde e amarela (tudo culpa do coentro e do dendê)! ô lê lê...